Eu relutei muito em contar esta história. Não porque ela tenha importância em demasia ou muito menos ainda por ter vergonha. É a lembrança mais doce que tenho dos dias que se passaram. A dor maior é saber que não virão mais. Por muito, busquei reviver os melhores dias da minha vida. Assim, pela fragilidade dos meus sentimentos em relação a tal fato, utilizarei nomes fictícios, dessa maneira, preservarei a integridade dos personagens. Digo personagens, pois o que vivi só pode ser acrescentado no Hall dos grandes seres romancistas. Há muito tempo, talvez o tempo não recorde de ambos, experimentei a primeira dor de um homem; homem esse, que em um corpo de um adolescente de 16 anos, sentia entre as entranhas, o lado coroa do amor: a perda. Éramos jovens. O mundo era pequeno para tamanhos sonhos. Riquezas de espírito, filhos e tantas outras idéias que só os sonhadores e homens de caráter poderiam supor. Pensávamos em viajar, conhecer a vida após os muros, como quem desbrava a própria essência. A vida doce devia ser vivida, e foi; por um pequeno período de dias. Infelizmente, com a velocidade que se vem à sorte, o destino carrega o futuro na mesma proporção. Aquele dia 8 de junho de 96, não estava para os melhores. Aulas, atividades esportivas, que tomavam muito dos turnos diários, enquanto aquela pessoinha esperava-me para mais uma noite de planos e declarações de amor. Como sempre cheguei atrasado; as horas não tinham relevância capital para quem via no futuro uma estrada interminável. O que seriam das horas comparadas ao amor eterno que possuía por ela? Quando ela abriu a porta, o universo de beleza e harmonia se atravessava à sala como se um feixe de luz irradiasse de alguma estrela cadente. Eu me tornei pequeno, simples, passageiro, perante a majestade da ternura que dela emanava. Úrsula era linda; com aqueles cabelos negros, descendo aos ombros, dando forma ao rosto de expressões graciosas. Olhar azulado; parecia uma vista de mar profundo, como se o céu límpido de uma manhã de verão desce boas vindas a você. Os lábios delineados e vermelhos hipnotizavam a quem fitasse os olhos neles. Era a doçura personificada. O corpo de um formato angelical faria das ninfas do olimpo, meras obras de arte, estampadas em uma praça qualquer, das indas e vindas do seres anônimos. Durante o período de contemplação, ela buscava seus pertences de mão, forçando o meu desvio de olhar. No mesmo instante, direcionei a visão para um quadro do seu falecido avô. Aquela expressão me acendeu um frio ventral, causando-me angústia, a ponto de eu pedir para que Úrsula se apressasse. Fomos ao cinema naquela noite. Confesso aos amigos leitores que não lembro com exatidão o título da película em cartaz. Desprezava qualquer elemento que desviasse minha atenção daquele sorriso que, atrás das expressões faciais, dizia “eu te amo”. Palavra que me persegue. Desde então, jamais falei desse termo como se fosse algo possível de ser qualificado. A impossibilidade de mensurar o amor veio desta pessoa. O mundo ficou mínimo; só existiam os momentos que se seguiam, os dois amantes: novos, com tantos sonhos e purezas, que fariam o maior dos anjos se curvarem. Após o término dessa vida inesquecível, em uma hora e meia de um filme qualquer, sairmos e nos deparamos com a chuva que abraçava a cidade como se fosse dar um adeus. Úrsula, com a inocência peculiar de sua personalidade disse: “Vamos tomar banho de chuva?” Eu respondi: “pra que? Tenho uns trocados. Vamos tomar um táxi”. Aquela atitude soou tal qual um banho de água fria. A expressão de Úrsula mudou completamente. Ela apenas retrucou: “Eu amo você”. “Por tudo que pensas e sente, haverei de ter um respeito interminável”. Essas palavras vibram em meu ser, lembrando que o amor é a reciprocidade, o respeito de quem faz da vida de dedicação ao companheiro, a experiência mais próxima da felicidade plena. A vida para dois amantes é assim: experimentada, compreendida e, acima de tudo: amada, sentida. Quantas vezes dizemos a quem amamos: " talvez; deixa pra depois; amanhã quem sabe..." e esse amanhã raramente se prontificará. No mesmo instante, percebi que tinha estragado aquela noite. Mesmo que o amor de Úrsula seja tão pertinente a ponto de abdicar uma opção, a sua personalidade e sentido de respeito, fizeram com que o sentimento de comunhão fosse substituído por um de desconforto. Algo possível de explicar, pois a simbiose entre ambos era tanto, fazendo-me pensar e sentir nossas almas como irmãos siameses que por ironia do destino, foram separados pela materialidade da existência e a fatalidade concreta Pensei: levarei minha namorada para lanchar na lanchonete de sempre, onde os amigos estarão lá para darmos boas risadas. Acreditava que um punhado de piadas e bobagens reascenderia a chama de paixão e amor que eu por uma atitude racional apaguei. O que há pra ser racional em uma atitude como essa? Deveria ter deixado a correnteza de aquele amor divino me levar ao país das cores e inspirações; de uma situação que não deveria ter jamais terminado. Os amigos bem que tentavam, mas os três patetas lá presentes: Moe, Larry, Shemp faziam esforços em vão para animar Úrsula. Naquela fagulha de inspiração, no qual me agarrei como se minha vida dependesse disso, tive um estalo de Vieira: Teria de alguma forma despertar a chama anteriormente apagada; mas como? Ok, eu sei que passear de charrete à beira de um lago é um programa pra lá de clichê, mas clichês, diziam os sábios são verdades que se repetem. Quando estávamos lá nos beijamos, e novamente perdido adentrei aos momentos insubstituíveis da vida. Não me recordo quanto tempo durou aquele beijo. O que posso garanti é que o doce de sua língua, juntamente aos seus lábios, era de uma maciez no qual o tapete persa não passa de uma pele sintética, semelhante ao mais áspero musgo, existente das vias esquecidas pelo domínio público. Após esse ritual do amor mais sublime que a mente humana poderia conceber, deixei-a em casa e nos despedimos, pois uma viagem pessoal de última hora me aguardava. Quando retornei, soube da pior forma possível que Úrsula tinha me deixado. Foi para um lugar onde as maravilhas não são apenas sonhos; um lugar onde as pessoas se respeitam pelo que elas são não pelo que aspiram a ser. Nesse local, a ternura e a reciprocidade são à base de todo amor ao próximo e movimentam o mundo como combustível feito a energia nuclear. Esse novo mundo, os homens não chamarão os seus próximos de fraco e sim darão forças para continuarem na luta; destarte, todos nós caímos, mas poucos são os que levantam e permanecem na briga. Nesse novo paraíso, os fracos são aqueles que respeitam o seu semelhante ou se cobram demais por saber a importância do caráter: a única coisa a carregar pós-morte. A vida, seja ela triste ou alegre é sempre surpreendente... Por uma enfermidade da vida ela se foi. Não interessa registrar aqui as causas ou motivos de sua ausência. Deixo a cargo dos legistas e curiosos. O importante é o quão ela representou e representa na minha vida e na de todos aqueles em que o amor não estar acima do lado dito e maldito racional, ou pelo menos citado como tal. A ela eu devo o homem no qual me tornei: presente maior entre os maiores. Um homem escravo do valor à vida, mais do que os próprios homens. Alguém que sofre porque ao ver uma injustiça, sabe da falha humana e pensa positivo, pelo dia melhor, pois todo mundo erra, mas são poucos abdicadores do orgulho em prol de uma causa maior: o predomínio do caráter. Não penso no hoje. Estar-se-íamos juntos atualmente?É provável que, com o tempo, as escolhas acabassem por nos separar, ou pelas imaturidades de nossas idades. Enfim, o importante daquele momento ninguém irá tirar. Espero sinceramente aos leitores que retirem do amor o valor de suas existências. Abelardo e Heloísa eram livres, mas optaram em prender-se ao amor, e foram eternizados por ele. Hoje estão no mundo de Úrsula. Lá a fila não anda, dizeres de pessoas vazias e carentes de amor, portanto não amadas não batem à porta. O amor não é passageiro, entretanto essas palavras são ditas por seres vazios, e presos às suas ilusões de felicidade. Essa Homenagem é feita ao aniversário de falecimento dessa pessoa que me ensinou o verdadeiro sentido do amor. Seu nome nem precisa ser aqui pronunciado e, sim aquilo que representa para os crentes na possibilidade de serem felizes, sendo honestos com as pessoas que amam e não desprezando-as; pode ser o último momento juntos. Eu aprendi da pior forma possível, mas sei que ela jamais se perderá nas veias do tempo, pois sua chama estará sempre acesa enquanto nos quatro cantos do mundo existir alguém cúmplice do amor a outra pessoa; capaz de fazer muito para continuar amando. Com ela aprendi também que posso amar para sempre, qualquer pessoa que esteja comigo... Uma parte de mim foi-se com ela e nunca mais voltou... Minha alma sempre chora e a represa nunca mais fechou.