sábado, 25 de abril de 2009

Para Jéssica- trecho de um sonho...

Fonte: http://artfiles.art.com/images/-/Natasha-Wescoat/With-the-Waves-Print-C12183683.jpeg


Caio Fernando Abreu -Ovelhas Negras


“Vem, que eu quero te mostrar o papel cheio de rosas nas paredes do meu novo quarto, no último andar, de onde se pode ver pela pequena janela a torre de uma igreja. Quero te conduzir pela mão pelas escadas dos quatro andares com uma vela roxa iluminando o caminho para te mostrar as plumas roubadas no vaso de cerâmica, até abrir a janela para que entre o vento frio e sempre um pouco sujo desta cidade. Vem, para subirmos no telhado e, lá do alto, nosso olhar consiga ultrapassar a torre da igreja para encontrar os horizontes que nunca se vêem, nesta cidade onde estamos presos e livres, soltos e amarrados. Quero controlar nervoso orelógio, mil vezes por minuto, antes de ouvir o ranger dos teus sapatos amarelos sobre a madeira dos degraus e então levantar brusco para abrir a porta, construindo no rosto um ar natural e vagamente ocupado, como se tivesse sido interrompido em meio a qualquer coisa não muito importante, mas que você me sentisse um pouco distante e tivesse pressa em me chamar outra vez para perto, para baixo ou para cima, não sei, e então você ensaiasse um gesto feito um toque para chegar mais perto, apenas para chegar mais perto, um pouco mais perto de mim. Então quero que você venha para deitar comigo no meu quarto novo, para ver minha paisagem além da janela, que agora é outra, quero inaugurar meu novo estar-dentro de- mim ao teu lado, aqui, sob este teto curvo e quebrado, entre estas paredes cobertas de guirlandas de rosas desbotadas. Vem para que eu possa acender incenso do Nepal, velas da Suécia na beira- da da janela, fechar charos de haxixe marroquino, abrir armários, mostrar fotografias, contar dos meus muitos ou poucos passados, futuros possíveis ou presentes impossíveis, dos meus muitos ou nenhuns eus. Vem para que eu possa recuperar sorrisos, pintar teu olho escuro, salpicar tua cara com purpurina dourada, rezar, gritar, cantar, fazer qualquer coisa, desde que você venha, para que meu coração não permaneça esse poço frio sem lua refletida. Porque nada mais sou além de chamar você agora, porque tenho medo e estou sozinho, porque não tenho medo e não estou sozinho, porque não, porque sim, vem e me leva outra vez para aquele país distante onde as coisas eram tão reais e um pouco assustadoras dentro da sua ameaça constante, mas onde existeum verde imaginado, encantado, perdido. Vem, então, e me leva de volta para o lado de lá do oceano de onde viemos os dois.”

Sade-trecho

"Nós distinguimos, em geral, duas espécies de crueldade: a que nasce da estupidez que, sem razão e sem análise, assimila o indivíduo às feras, não produz prazer algum; é apenas uma inclinação natural; as brutalidades por ela causadas não são erigosas, pois é fácil delas nos defendermos. A outra. espécie de crueldade, fruto da extrema sensibilidade dos órgãos, não é conhecida senão pelos seres extremamente delicados; é uma delicadeza extrema e refinada que põe em movimento todos os recursos da maldade. Poucas pessoas podem perceber tais diferenças, poucas a podem sentir; entretanto, elas existem. É este segundo gênero de crueldade que mais se encontra entre as mulheres; são conduzidas por excesso de sensibilidade, a força do espírito torna-as ferozes; por isso mesmo são encantadoras, fazem todos perderem a cabeça por elas. Infelizmente a rigidez absurda dos nossos costumes deixa pouco terreno a essa crueldade, obrigando-as a se esconder, a dissimular, a cobrir suas inclinações naturais por atos ostensivos de beneficência que elas no fundo odeiam."

Sursi-Sartre

"No meio do Pont-Neuf ele parou a pôs-se a rir; essa liberdade procurei-a bem longe; estava tão próximo que não a podia ver, não a podia tocar, era apenas eu. Eu sou a minha liberdade. Esperara ter um dia uma imensa alegria, ser transpassado por um raio. Mas não havia nem raio nem alegria: aquela nudez apenas, aquele vácuo tomado de vertigem diante de si mesmo, aquela angústia cuja própria transparência impedia de se ver. estendeu as mãos e passeou-as devagar sobre a pedra do parapeito, era rugosa, vincada, uma esponja petrificada, quente ainda do sol da tarde. Estava ali, enorme e maciça, encerrando em si o silêncio esmagado, as trevas comprimidas que constituem o âmago das coisas. Estava ali, uma plenitude. Teria desejado agarrar-se a essa pedra, fundir-se nela, encher-se de sua opacidade, de seu repouso. Mas ela não podia ser-lhe de nenhuma serventia, estava fora, para sempre. No entanto havia suas mãos no parapeito branco: quando as olhava, pareciam de bronze. Mas, justamente porque as podia olhar, não lhe pertenciam mais, eram mãos de outro, de fora, como as árvores, como os reflexos no Sena, mãos cortadas. Fechou os olhos e elas tornaram a ser dele; não houve mais sobre a pedra quente senão um gostinho ácido e familiar, um saborzinho de formiga muito desdenhável. Minhas mãos: a inapreciável distância que me revela as coisas e delas me separa para sempre. Não sou nada, não tenho nada. Tão inseparável do mundo quanto à luz e, no entanto exilado, como a luz, deslizando à superfície das pedras e da água, sem que nada, jamais, me prenda ou me faça encalhar. Fora. Fora. Fora do mundo, fora do passado, fora de mim mesmo: a liberdade é o exílio e estou condenado a ser livre." (Sursis - Sartre p.297, 298)