"No meio do Pont-Neuf ele parou a pôs-se a rir; essa liberdade procurei-a bem longe; estava tão próximo que não a podia ver, não a podia tocar, era apenas eu. Eu sou a minha liberdade. Esperara ter um dia uma imensa alegria, ser transpassado por um raio. Mas não havia nem raio nem alegria: aquela nudez apenas, aquele vácuo tomado de vertigem diante de si mesmo, aquela angústia cuja própria transparência impedia de se ver. estendeu as mãos e passeou-as devagar sobre a pedra do parapeito, era rugosa, vincada, uma esponja petrificada, quente ainda do sol da tarde. Estava ali, enorme e maciça, encerrando em si o silêncio esmagado, as trevas comprimidas que constituem o âmago das coisas. Estava ali, uma plenitude. Teria desejado agarrar-se a essa pedra, fundir-se nela, encher-se de sua opacidade, de seu repouso. Mas ela não podia ser-lhe de nenhuma serventia, estava fora, para sempre. No entanto havia suas mãos no parapeito branco: quando as olhava, pareciam de bronze. Mas, justamente porque as podia olhar, não lhe pertenciam mais, eram mãos de outro, de fora, como as árvores, como os reflexos no Sena, mãos cortadas. Fechou os olhos e elas tornaram a ser dele; não houve mais sobre a pedra quente senão um gostinho ácido e familiar, um saborzinho de formiga muito desdenhável. Minhas mãos: a inapreciável distância que me revela as coisas e delas me separa para sempre. Não sou nada, não tenho nada. Tão inseparável do mundo quanto à luz e, no entanto exilado, como a luz, deslizando à superfície das pedras e da água, sem que nada, jamais, me prenda ou me faça encalhar. Fora. Fora. Fora do mundo, fora do passado, fora de mim mesmo: a liberdade é o exílio e estou condenado a ser livre." (Sursis - Sartre p.297, 298)
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